domingo, 2 de dezembro de 2007

A ARTE DESCONSTRÓI A HISTÓRIA OFICIAL EM "JULIO IRÁ VOAR"













Por Helder Bentes, professor e crítico literário

"Abençoados os loucos porque é a partir deles que voam as idéias, os sonhos e a verdade" (Carlos Correia Santos)

Depois do sucesso de NU NERY, tudo indica que o paraense Carlos Correia Santos poderá ficar conhecido, na história da dramaturgia universal, como o dramaturgo cuja inspiração cerca os grandes vultos de nossa história que não tiveram o merecido reconhecimento em suas épocas.

Sob a direção de Paulo Santana e através do grupo Palha, ele traz à cena mais uma obra marcante na dramaturgia universal. Falo da peça "Júlio irá voar", que estréia no próximo dia 17/11, no IAP, com patrocínio do programa Amazônia Arte Mix, da Amazônia Celular. A peça transporta para a linguagem artística a trajetória do paraense Júlio Cezar Ribeiro de Souza que, segundo o Dr. Luis Carlos Bassalo Crispino, estudioso de Júlio Cezar no Brasil, foi o grande artífice da navegação aérea, de cujo drama nasce a peça de Carlos Correia.

De acordo com as pesquisas do Dr. Bassalo, Júlio Cezar descobre a arte de voar fundando suas hipóteses ao observar os vôos dos urubus do Ver-o-peso. Viaja para a França em 1882 e encomenda a construção de seu balão à Lachambre, após haver feito uma explanação de seu projeto em 1880. Em 1884, porém, há o vôo do La France, balão projetado pelos franceses Charles Renard e Arthur Krebs. Os registros históricos, porém, revelaram que, havendo assistido às palestras de Júlio Cezar, os franceses plagiaram a idéia do brasileiro, fato este que repercutiu em todos os jornais do mundo à segunda metade do século XIX.

O desabafo relativo ao roubo de sua idéia foi expressado por Júlio Cezar nestes termos, em Maio de 1887, pouco tempo antes de sua morte: "O mundo inteiro está completamente mistificado pelos felizes plagiários do meu invento, para quem, num país de economias, chovem os milhões, para balões colossais do meu sistema, quando eu só tive migalhas no país dos grandes esbanjamentos, porque completamente mistificada por eles está a ciência".

Esta fala histórica de Júlio Cezar, infelizmente ainda muito atual, apesar dos "investimentos" em educação alardeados nas campanhas políticas, resume a angústia do eu de Júlio Cezar, não menor que a dos pesquisadores atuais.

Este conflito na peça é representado sob seis pontos de vista: do sonho, das idéias, da loucura, da verdade e da eternidade, além do eu infantil de Júlio Cezar. Essas entidades são personificações de instâncias que interagem com qualquer um de nós, em nossa trajetória individual.
Afinal, quem de nós nunca teve um sonho, uma idéia de superação tão intensa que "louca"? Quem de nós nunca acreditou um dia que "Nenhuma verdade é maior que a idéia da superação"? Quem de nós nunca comparou os sonhos da infância com a realidade que se nos revela à vida adulta?

O texto dramático de Carlos Correia é também poético, como não poderia deixar de ser, e ao leitor iniciado em poesia, impõe intertextualidades com clássicos da Literatura universal, como o célebre Fernando Pessoa, para quem a infância nos faculta uma visão impossível à vida adulta: "Lembro-me de quando era criança e via, como hoje não posso ver, a manhã raiar sobre a cidade...".

Esta propriedade amplia o público da obra de Carlos Correia que abrange história, literatura, semiologia, dramaturgia e hibridismo de linguagens, fazendo de "Júlio irá voar" uma obra perfeita como recurso didático para o educador que pretende iniciar seus alunos em arte e levar-lhes à experiência estética impossível de ser alcançada na apreciação da pseudoarte que a mídia coloca ao alcance de nossos jovens. Além, é claro, de atender às expectativas do público em geral, pois a peça, embora motivada por uma pesquisa histórica, ultrapassa a objetividade do relato histórico e se autosustenta como obra de ficção.

É óbvio que, sem uma direção teatral responsável por dar vida ao texto, essas propriedades textuais permaneceriam anônimas ao grande público. Com uma direção que se caracteriza por desconfigurar o espaço de apresentação teatral, Paulo Santana é o grande responsável por grande parte do hibridismo de linguagens que se verifica no palco, como na cena que recompõe a tentativa de ascensão do balão Santa Maria, na Praça Frei Caetano Brandão, onde Júlio Cezar também observava os urubus que inspiraram, de certa forma, seu invento.


Um comentário:

Wagner Pires disse...
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